Definindo o MONTANHISMO por um apaixonado

Acampamento rumo ao Baruntse (7129m) no Nepal.

Toda vez que alguém me pergunta se pratico regularmente algum esporte, reluto em dizer que sou escalador… Posso até dizer que nado, corro e ando de bike, o que faço até que com bastante frequência, e já me caracterizaria como esportista.

Mas com a escalada é diferente. Não sei explicar bem o porquê, mas nestes quase 20 anos subindo montanhas pelo mundo afora ainda não achei a forma de encaixar o montanhismo como prática esportiva, e vou explicar…

Geralmente amigos (não escaladores) ou simplesmente pessoas que encontro em palestras ou eventos tendem a confundir o montanhismo de forma geral. Uns o chamam de Alpinismo, outros de Escalada, outros simplesmente acham que subimos com picaretas e sapatos de prego em qualquer morro por aí.

A imagem é até compreensível, uma vez que o montanhismo aparece em desenhos animados ou filmes de Hollywood de forma sempre bem caricata, sem qualquer representação da verdade pela qual nós montanhistas passamos.

Entenda o montanhismo como CICLISMO. É o nome genérico que abrange todas as “subcategorias” ou “modalidades”. No caso do ciclismo: o Mountain Bike, Speed, Free Style, Contra-relógio, bici-cross, etc. No montanhismo: escalada esportiva, clássica, boulder, artificial, indoor, gelo, mista, alpina, solo, ou alta montanha. Cada uma desta subdivisões do Montanhismo possui praticantes com perfis distintos, envolvem riscos e equipamentos que podem variar completamente, e podem durar de poucos minutos até meses, além de terem dificuldades físicas e psicológicas completamente diferentes.

Para realmente entender o montanhismo é preciso praticá-lo. Só explicar em palavras o prazer de chegar ao cume de uma montanha ou ao topo de uma parede rochosa, depois de tanta dor, força e sacrifício é realmente difícil.

Quando eu digo que o montanhismo é um “esporte” diferente, digo “esporte” simplesmente pela falta de uma palavra que o defina. Muitas vezes nem acho que esporte seja realmente a melhor definição da atividade:

– Esporte tem regras. Montanhismo tem ética.

– Esporte tem quadra, pista, campo, raia. Montanhismo tem o mundo a ser descoberto.

– Esporte tem plateia. Montanhismo tem a natureza ao seu redor.

– Esporte tem adversário. No montanhismo seu maior adversário é você mesmo.

Montanhismo não se pratica, se vive. Você começa a viver o montanhismo ainda em casa ou no trabalho, programando a próxima viagem ou expedição. Em seguida você treina e planeja a estratégia por dias, semanas, as vezes por meses. E então você desfruta lugares remotos, conhece novas culturas, e por fim escala em lindas paisagens numa completa harmonia com a natureza ao seu redor, em busca de auto-superação e conhecimento do seu corpo e limite.

E como se tudo isso já não fosse o bastante, no montanhismo ainda temos a adrenalina! Para mim apenas um detalhe que nos faz dormir melhor no fim do dia, como se fosse um bônus. Mas como disse certa vez um grande amigo – Ao contrário de um salto de paraquedas, de uma descida de snowboard ou de um salto de bungee-jump, na escalada a adrenalina não é injetada de uma só vez, ela goteja pouco a pouco durante horas, nos mantendo atentos e alertas a qualquer risco, nos mantendo vivos na parede. Se existe um esporte o qual eu faria um paralelo com o montanhismo, talvez seja o surfe de ondas gigantes. Em ambos o praticante está em busca de novos desafios, em contato com uma natureza exuberante, tentando vencer o seu medo e o desafio do mar e montanhas. Basta respeitar a natureza e seus próprios limites para ser um vitorioso. Mas destrinchando então um pouco desta salada que é o Montanhismo, aqui vão algumas das principais modalidades, se é que podemos assim definí-las:

Janine Cardoso em Butter Milk, Califórnia.

BOULDER – É a escalada de pequenos blocos de pedra, normalmente de não mais que 5 metros de altura, protegida apenas de um pequeno colchão chamado de CRASH PAD para amortecer suas quedas. Se praticado com um parceiro, este pode fazer a sua “segurança de corpo”, lhe auxiliando a cair corretamente neste colchão. Geralmente são escaladas curtas e bem extenuantes, com movimentos difíceis e precisos. É uma modalidade muito praticada por escaladores

mais jovens. Equipamentos usados – Um par de sapatilhas, carbonado de magnésio para secar as mãos, crash pad para segurança.

Alê Cardoso na via Bagulho Ignorante 9c, Pedra do Baú. SP

ESCALADA ESPORTIVA – São escaladas curtas, variam entre 15 a 50 metros, porém já se faz necessário o uso de equipamentos de proteção como cordas, cadeirinhas e mosquetões. Busca-se sempre a maior dificuldade na progressão, com paredes bastante inclinadas, negativos ou tetos. Geralmente são vias bem protegidas onde há possibilidade de pequenas quedas mas que não ponham em grande risco o praticante. A escalada esportiva também pode ser praticada INDOOR, ou seja, em academias onde as paredes e vias de escalada são construídas para representar as dificuldades encontradas na natureza. A escalada indoor é sem dúvida alguma a melhore mais segura opção de entrada no montanhismo.

Alê Silva guiando no Bauzinho, SP.

ESCALADA CLÁSSICA ou TRADICIONAL – São escaladas mais longas, geralmente entre 100 e 400 metros, onde pode-se gastar de algumas horas até um dia inteiro. O grau de exposição ao risco já é maior  e os escaladores devem ser bem mais experientes. O perfil do escalador clássico já é um pouco mais velho e o desafio deixa de ser apenas físico e passa a ser mais mental. A graduação de dificuldade deixa de ser o foco na escalada.

BIG WALL / ARTIFICIAL – A escalada em BIG WALL, como o próprio nome diz, é a de grandes paredes. Pode chegar a 800, 1500m de altura. Sua duração vai de pouco mais de um dia até 3 ou 4 facilmente. Envolve uma logística complexa de auto-suficiência na parede, como dormir e cozinhar. Geralmente no Big Wall usa-se também uma técnica chamada de ESCALADA ARTIFICIA L, ou seja, o escalador ao invés de usar as mãos e pés direto nas saliências e fendas da rocha para progressão, pode usar também ganchos e pequenas peças metálicas para se fixar e seguir na parede. A quantidade e variedade de equipamentos utilizados no BIG WALL é sem dúvida uma das maiores.

Escalada nas paredes de gelo do Colorado, EUA.

ESCALADA EM GELO – A escalada em gelo como o próprio nome diz não é feita mais diretamente sobre a rocha e sim sobre o gelo. Ela aproxima-se mais da escalada clássica quanto ao perfil do praticante e grau de exposição ao risco. É a escalada onde usa-se as tais picaretas e pregos nos sapatos, tantas vezes caracterizadas em desenhos e filmes. As picaretas são chamados de Piolets e os pregos nas botas de Crampons.

Cymbá e Leiser a caminho do Pisco, Peru.

ALTA MONTANHA – Alta montanha são realmente as grandes expedições para picos nevados normalmente acima de 5000m de altitude, culminando no ponto máximo de 8848m do Mt.Everest. Na escalada de alta montanha o montanhista deve preferencialmente ter experiência em todas as modalidades anteriores, para saber lidar com trechos de rocha e gelo. Deve também ter grande domínio psicológico, além de resistência física e emocional. Na alta montanha estão os montanhistas mais velhos e experientes, onde a capacidade de lidar com situações adversas e a perseverança na busca de seus objetivos sobressaem à força muscular dos mais jovens.

Alê Silva escalando na Casa de Pedra.

Se você se interessou pela escalada, a melhor forma de começar com segurança é procurar uma academia. Além de receber instrução dos procedimentos básicos, você poderá locar todo seu equipamentos e terá acompanhamento de monitores especializados. Em São Paulo, a Casa de Pedra no bairro de Perdizes, é sem dúvida a melhor opção para que você dê seus primeiros passos com toda a segurança necessária: www.casadepedra.com.br/escalada

Be safe, be Cool… Alê Silva.

Alexandre Silva, 38 anos, é montanhista e proprietário da Casa de Pedra. Iniciou suas atividades de montanha em agosto de 1993 enquanto cursava Arquitetura e Urbanismo na FAUUSP. Foi campeão paulista de escalada em 1996 e brasileiro, na modalidade velocidade, em 1997. Já escalou em países como França, Espanha, Itália, Bolívia, Peru, Chile, Argentina, Nepal, EUA e Canadá, e abriu novas vias de escalada em rocha, principalmente no estado de São Paulo. Atualmente dá cursos, workshops e escreve matérias e colunas para mídias do segmento outdoor. alesilva@casadepedra.com.br

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