Proteções e ancoragens no gelo

Por: Davi Marsk

Cada vez mais temos escaladores brasileiros indo explorar o mundo gelado das cascatas de gelo, do ambiente alpino e das grandes altitudes.

Enquanto grande parte das rotas normais nas grandes montanhas, com mais de 4000m ou 5000m, apresentam rotas normais no qual basta dominar o básico do trânsito em glaciar e um pouco de ancoragem em neve, outras rotas apresentam trechos com gelo.

Parafusos de Gelo "Turbo Express" da Black Diamond

Mesmo uma rota normal que usualmente possui apenas rampas nevadas, pode acontecer de em uma determinada temporada, apresentar essa mesma rampa com gelo (caso do popular “Pequeño Alpamayo”, na Bolívia, que em alguns anos apresenta sua crista apenas com neve dura, e em outros anos apresenta trechos com gelo duro, ou até mesmo o Illimani, também na Bolívia, que usualmente apresenta uma rampa de gelo com seus 30m e 45 a 60 graus de inclinação.

Existem vários “tipos” de gelo… gelo duro, gelo com bolhas de ar aprisionadas, gelo em “camadas” (que ocorre quando camadas de gelo são formadas em diferentes períodos de tempo), gelo em formato de tubo (ou flauta) – os famosos “ice flutes”…

A colocação de parafusos de gelo é um assunto muito empírico, grande parte baseado na experiência prévia do escalador, que fica atento à forma como o gelo trinca à medida que o parafuso entra no gelo e ao som que o parafuso faz ao entrar. São fatores que somente são possíveis de serem absorvidos convivendo-se com pessoas mais experientes. Existem diversos tamanhos de parafusos de gelo, que vão desde 9cm a até 25cm. São feitos em ligas de aço, alumínio ou até mesmo de titânio (ouve uma invasão de parafusos de titânio, oriundos da antiga URSS, quando esta se desfez…).

Na esquerda formas corretas de colocar um parafuso de gelo, e na direita, as formas incorretas.

Remova o gelo ruim e a neve antes de colocar um parafuso de gelo.

Trata-se de uma peça delicada e frágil em suas pontas, dessa forma, protegê-los de impactos que possam danificar as pontas ou atrapalhar o fio da rosca do parafuso é fundamental (na eventualidade de ser necessário afiar um parafuso de gelo, pesquise na internet por tutoriais sobre como fazer isso – É um processo delicado e cansativo).

Para facilitar a inserção e a retirada dos parafusos de gelo, vários modelos possuem uma aba com uma pequena saliência móvel que funciona como um volante.

Ao montar uma ancoragem usando dois ou mais parafusos de gelo, deve-se manter pelo menos 50 cm de distância entre eles, evitando assim que os cones de fratura causados pela expansão do gelo (que às vezes acontecem) possam se sobrepor, fragilizando assim o sistema.

Coloque o parafuso sempre perpendicular à superfície, evite colocar ele em ângulo com a superfície.

Ao montar-se uma parada equalizada em gelo, é preferível montar-se os parafusos praticamente verticais, um sobre o outro, garantido desta forma um ângulo o mais estreito possível. Dica: Note o uso de nós simples para evitar um aumento na força exercida sobre a proteção, caso uma das ancoragens venha a falhar (ancoragem bloqueada).

Técnica do Abalakov (V-Thread) Essa certamente é uma das técnicas mais úteis para montar uma ancoragem ou mesmo para possibilitar um rapel em paredes com gelo. Desenvolvida pelo russo Abalakov, apenas tornou-se popular no ocidente após a abertura soviética, nos anos 1990.

É uma técnica simples e eficaz, e com pouco treino e prática pode ser realizado rapidamente.

Localize um ponto de gelo compacto, limpe a área ao redor, removendo o gelo ruim, a neve depositada, etc… Em seguida, com um parafuso de gelo (prefira os parafusos compridos, de 17, 20 ou até mesmo de 25 cm), faça dois furos com um ângulo entre 60 a 90 graus entre os parafusos, de forma que ambos os furos se encontrem no fundo. Passe a corda ou cordelete, de no mínimo 7mm, por dentro dos furos. Para ajudar a puxar, utilize um “saca abalakov”, que inclusive pode ser feito de forma artesanal.

Ancoragem equalizada e bloqueada. Note o ângulo pequeno formado pelas fitas onde encontra-se o mosquetão por onde passa a corda. Foto: Davi Marski

E finalize amarrando as pontas com um nó de pescador duplo! (na foto acima o nó correu para dentro do gelo).

Dicas:

Quando se utiliza cordeletes com diâmetro pequeno para ancoragens Abalakovs, nunca devem ser amarradas as pontas com um nó simples ou nó direito. O padrão de nó para conectar cabos ou

cordeletes neste tipo de situação, com cordeletes finos, deve ser o nó de pescador duplo.

Se utilizar uma fita tubular o nó deve ser o nó de fita. Lembre-se de deixar uma boa sobra de fita após o nó. Atualmente não se utiliza mais fitas para montar abalakovs

Ao utilizar cordeletes, use no mínino de 7mm. Deixe uma sobra de cordelete após os nós e aperte-os bem.

Preparando um Abalakov. Fotos: Davi Marski

SEMPRE faça um backup da ancoragem Abalakov com um ou dois parafusos no gelo, enquanto o primeiro escalador estiver descendo. O backup deve ser feito também para a corda, para o caso do nó deslizar. A última pessoa a descer poderá remover o parafuso de backup sabendo que a ancoragem foi previamente testada. Se o Abalakov montado não inspirar confiança, monte outras ancoragens Abalakov e as equalize (preferencialmente de forma bloqueada).

Ao adicionar uma ancoragem para ser combinada com uma já existente, fazer igualando as duas de modo que ambas possam ser utilizadas. Se houver uma ancoragem mais curta, a outra se tornará quase inútil.

Quando a distância entre os furos é de 10cm, em gelo bom e duro, a resistência de um Abalakov entre 6 a 7KN, já com 15cm, a resistência oscila entre 10 e 11KN e para 20cm, entre 11 a 12KN. Esses não são valores absolutos, podem variar de acordo com a qualidade e integridade do gelo.

Para saber mais,recomendamos o estudo dos livros (os dois primeiros compõem a “Bíblia” da escalada em gelo):

Ice World: Techniques and Experiences of Modern Ice Climbing , escrito pelo Jeff Lowe

Climbing Ice, do Yvon Chounaird

Ice & Mixed Climbing: Modern Technique, do Will Gadd

How to Climb: How to Ice Climb!, do Graig Luebben

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