O meu 5.15

Já não é de hoje que praticamente todas as conquistas de montanhas, escaladas clássicas, big walls e diversas outras grandes aventuras já foram tantas e tantas vezes repetidas, que simplesmente repetí-las da forma tradicional, já “não tem mais graça”. O barato agora é fazer um bigwall sem corda, ou escalá-los em menos de 24 horas, quando no início demorava-se 3 ou 4 dias, as vezes uma semana.

Montanhas acima de 8 mil metros agora são repetidas em estilo alpino, sem carregadores e sem aquela aclimatação clássica que duravam meses. Diversas dessas montanhas agora são escaladas no inverno, sem oxigênio, pela face mais difícil e mais recentemente, contra o relógio. O que mais estar por vir?

Está aí o fenômeno Alex Hanold, para provar que é possível solar um BIGWALL de quase 1000m em inacreditáveis 2 horas e 50 minutos! Lembro-me que há pouco mais de 10 anos, depois de abrir e encadenar a via SUPERMAN (5.12c) na face sul do Bauzinho, fui a convite do Eliseu Frechou, filmar a escalada que integrou o filme ESCALADA BRASIL, lançado posteriormente em fita VHS, dá pra acreditar? E hoje em dia BluRays e novos Downloads pipocam na internet todas as semanas.

Quem nunca viu também a clássica série Masters of Stones? Nestes filmes víamos John Backar, John Long e Dan Osman escalando vias de 5.13c e esse grau era o topo da tabelinha!  Lembro-me também quando Chris Sharma encadenou a via Just Do It em City Of Rocks no Oregon, tornando-se o primeiro americano a escalar um 5.14c. Na época a via mais difícil dos EUA.

Poucos dias a trás voltei a assistir uma entrevista com o Sharma onde ele comentava sobre uma parede na Espanha com mais de 14 vias cotadas em 5.15! Caramba, o 5.13c passou para 5.14 e agora já está em 5.15? Se não me engano e não estou mais uma vez desatualizado, já são 4 vias de 5.15b confirmadas no mundo! Será que já existe em algum lugar um projeto sugerido em 5.16?

Mas, voltando ao planeta terra, para você, ser humano normal, desprovido de tendões de DYNEX e pés com sola Stealth C4, compartilho aqui meu maior aprendizado depois de tantos anos e vias escaladas.

Realmente me impressiona e admira toda essa evolução nos esportes: os tempos em maratona vem caindo com os anos, as alturas das provas de salto vem subindo centímetro a centímetro, novos recordes são batidos a cada olimpíadas ou panamericano, e a escalada não poderia deixar de ser diferente.  Mas na minha opinião há um ponto muito importante na escalada que a difere de todos os outros esportes, e que a torna única.

“Na escalada você não tem um adversário, não tem regras, não tem platéia e o desafio é só seu”.

– Se você escala um 5º grau, curta-o com o mesmo gosto de um 5.15, não se sinta mal ou constrangido com isso.

– Supere-se a cada fim de semana na rocha, tente o sexto, sétimo e assim por diante. Não porquê seu amigo consegue, mas porquê você quer se superar e evoluir.

– Vença o medo e guie uma via que você já fez em top-rope. A escalada guiada é outro esporte, comprometimento e auto-controle são fundamentais.

– Se quiser, faça 20 vezes a mesma via. Quem não tem uma via predileta? São nas vias exaustivamente repetidas que te sobrará tempo para admirar e aproveitar todo o ambiente ao redor, e que as vezes se apaga quando no limite da sua capacidade física. Eu frequento o Baú há pelo menos 18 anos e sempre que posso repito a Ensaio de Orquestra(7a), a Corneto(6a), a Tudo Bem(6b). São todas vias fáceis pra mim, mas garanto que o meu prazer em escalá-las não diminui nem um pouco da primeira vez que as escalei, para a vigésima.

– A escalada é praticada em duplas, mas ao contrário dos outros esportes a dois, sua dupla é seu maior parceiro e não adversário!

Na verdade eu acho que na escalada quero mesmo é sentir o vento no rosto, o sol quebrando o friozinho da montanha. Quero sentir o cheiro da pedra, desfrutar o visual do vale, ouvir o canto das maritacas e passar o dia com amigos… E no final das contas a VIA só está lá mesmo pra nos servir de palco para que todo o restante possa ser ensaiado!

Chegar ao topo é só consequência de um dia bem aproveitado.

Afinal 5º ou 15º? Quem se importa?

Boas escaladas, Alê Silva.

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